Para contar história e construir memória


Os livros do Projeto Comunicação Capixaba (Coca) são um esforço de reportagem, como se diz nas redações. É um trabalho profissional de quem ainda é aluno. É obra da conjunção de esforços que ultrapassam os limites do campus universitário.

Recém-empossado como professor do Departamento de Comunicação da UFES, em maio de 2004, foi-me destinada a disciplina de Administração e Mercadologia em Jornalismo, cujo objetivo é preparar os alunos para enfrentar o mercado de trabalho. Saído exatamente do mercado, trazia comigo a consciência de uma de suas maiores demandas: a produção de publicações institucionais. Por que não ensinar os alunos a fazer livros, da idéia inicial à edição final?

Mas sobre o que escrever? A comunicação capixaba padece de falta de memória. Muito do que se construiu no século XX está se perdendo por inexistência de registros e pelo desaparecimento das fontes que guardam nos corações e mentes o passado que viveram. Numa conversa com a jornalista, cineasta e ex-professora da UFES Glecy Coutinho, ela alertava-me sobre a necessidade de se registrar essa memória.

Mas não bastam boas idéias e disposição para fazer - um projeto não se realiza sem recursos. Ao governador Paulo Hartung e ao então superintendente de Comunicação do Governo do Estado do Espírito Santo, Tião Barbosa, não faltou sensibilidade para a importância da iniciativa - a Imprensa Oficial se responsabilizou pela impressão do livro, que é distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas públicas, núcleos de pesquisa e veículos de comunicação.

Durante as aulas, metade do tempo é dedicado à discussão da comunicação, do capitalismo e do mercado de trabalho contemporâneos. No segundo tempo, dedicamo-nos ao planejamento e à execução dos livros. Os escritores são agrupados em duplas ou trios, que assinam os capítulos elaborados segundo pauta decidida coletivamente, mas com plena autonomia discursiva.

E aqui cabe uma abordagem acerca da importância da memória. O passado pode ser observado e narrado de diferenciadas formas. Um fato concreto pode suscitar, pois, diversas memórias. Depende de como foi registrado no tempo próximo de seu acontecimento e, principalmente, do tempo de quem o relembra, de quem o relê e o reconta. Memória não é passado, é leitura presente do que passou com vistas a um futuro desejado.

E por que a memória é importante? Importa pelo fato de ela ser a principal referência para a constituição de nossa identidade. Entendendo-se identidade como o autoconhecimento e a diferenciação em relação ao outro, a memória é o que nos dá elementos para nos conhecermos e demarcarmos nossas peculiaridades no mundo.

A comunicação capixaba, como de resto o Estado do Espírito Santo, carece de memória. Sem sabermos o que fomos, sem conhecermos nossa caminhada, falta-nos algo essencial na construção de um futuro melhor e com maior autonomia social, cultural, política e econômica: falta-nos uma identidade concreta e objetiva. E identidade é memória em ato.

O passado sempre teve um futuro. E o futuro não prescinde do passado. Somos aquilo que lembramos, mas também o que esquecemos. Memória é consciência e inconsciência; similaridade e diferença; lembrança e esquecimento; busca, invenção e reinvenção; crença. E como exercício, memória não é algo que se completa ou termina; permanece. Como a vida, e sendo elemento primordial da Humanidade, é algo sempre incompleto. Obra coletiva, é projeto que se faz e refaz ao longo das existências. É pegada e caminho; sonho e horizonte.

José Antonio Martinuzzo
Professor organizador e editor do Projeto CoCa